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Terça-feira, 7 de Junho de 2011

Anseios

 

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!

 

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

 

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

 

Não estendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!...

 

Florbela Espanca, in A Mensageira das Violetas

seria bom se: te decidisses...
música: U2 - With or without you
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publicado por Raquel às 23:59
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De Que São Feitos os Dias?

 

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

 

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

 

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

 

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

 

Cecília Meireles, in Canções

publicado por Raquel às 20:48
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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Adeus

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

 

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

 

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus.
 

 

Eugénio de Andrade

 

(Espero que seja a última vez que publico este poema... Pelo menos que os motivos nunca mais sejam os mesmos.)

 

***

 

"Cometem-se muito mais traições por fraqueza do que em consequência de um forte desejo de trair."

 

François La Rochefoucauld

publicado por Raquel às 17:58
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Sábado, 19 de Março de 2011

Epitáfio 

 

Ainda correm lágrimas pelos
teus grisalhos, tristes cabelos,
na terra vã desintegrados,
em pequenas flores tornados.

 

Todos os dias estás viva,
na soledade pensativa,
ó simples alma grave e pura,
livre de qualquer sepultura!

 

E não sou mais do que a menina
que a tua antiga sorte ensina.
E caminhamos de mão dada
pelas praias da madrugada.

 

Cecília Meireles, in Poemas

publicado por Raquel às 09:53
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Domingo, 6 de Março de 2011

Apontamento

 

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

 

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

 

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

Não se zanguem com ela.


São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? 

 

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

 

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

 

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali. 

 

Álvaro de Campos

publicado por Raquel às 23:58
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Para Ti 

 

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo.

 

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre.

 

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

 

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

publicado por Raquel às 23:49
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Sábado, 29 de Janeiro de 2011

Nascemos para Amar 

 

Nascemos para amar; a Humanidade
Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.
Tu és doce atractivo, ó Formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

 

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão na alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

 

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

 

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

 

Bocage, in Sonetos

publicado por Raquel às 19:45
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Ternura 

 

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

 

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

 

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

 

David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

publicado por Raquel às 00:01
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Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Chove. É Dia de Natal

 

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
 


Fernando Pessoa, in Cancioneiro

seria bom se: fosse tudo mais alegre...
música: Frank Sinatra - Let it snow
publicado por Raquel às 11:08
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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Grita

 

Amor, quando chegares à minha fonte distante,

cuida para que não me morda tua voz de ilusão:

que minha dor obscura não morra nas tuas asas,

nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro.

 

Quando chegares, Amor

à minha fonte distante,

sê chuva que estiola,

sê baixio que rompe.

 

Desfaz, Amor, o ritmo

destas águas tranquilas:

sabe ser a dor que estremece e que sofre,

sabe ser a angústia que se grita e retorce.

 

Não me dês o olvido.

Não me dês a ilusão.

Porque todas as folhas que na terra caíram

me deixaram de ouro aceso o coração.

 

Quando chegares, Amor

à minha fonte distante,

desvia-me as vertentes,

aperta-me as entranhas.

 

E uma destas tardes - Amor de mãos cruéis -,

ajoelhado, eu te darei graças.

 

Pablo Neruda, in Crepusculário

publicado por Raquel às 00:07
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