I actually do...

Sábado, 24 de Janeiro de 2009

(...) Iam assim a conversar pela rua, brincando um com o outro e discutindo mundanidades, quando, depois de descerem o Chiado e ao chegarem ao Rossio, Luís reparou numa mulher andrajosa encolhida numa manta e sentada sobre folhas de jornal estendidas no passeio. Era já noite cerrada e a mulher tinha enconstada ao peito a cabeça suja de uma criança adormecida, por certo a filha, e ao lado encontrava-se um cesto de vime com um bebé embrulhado lá dentro. Talvez aquela mãe nem fosse mulher, apenas uma rapariga que a vida prematuramente envelhecera, mas algo na sua fisionomia atraiu a atenção do estudante. Tratava-se de qualquer coisa de indefinível, talvez do fardo da miséria que lhe pesava nos olhos, quiçá do alívio que buscava no braço estendido aos transeuntes.

"Dê-me uma esmolinha, por amor de Deus."

Também a ele a pedinte dirigiu o braço suplicante. Em vez de a ignorar ou de lhe lançar umas moedas de caridade, porém, Luís ficou momentaneamente a contemplá-la. Já tinha visto muitos pedintes nas ruas, Lisboa estava cheia deles, sujos, andrajosos e deformados, mas percebeu que era a primeira vez que os via mesmo. Via-os.

Foi o momento da epifania. Numa explosão de consciência, Luís caiu em si e compreendeu por fim o verdadeiro desígnio da sua busca. A justiça. Como se tivesse sido atingido por um raio de luz, teve nesse mesmo instante a noção de que, desde que Amélia lhe havia sido retirada, a sua vida se tinha trnasformado numa demanda contra a iniquidade. A rapariga estendia-lhe o braço a implorar uma esmola e era como se fosse ele de braço estendido à vida a clamar por justiça.

Percebeu então que carregava dentro de si a revolta reprimida pelo amor que lhe havia sido rubado e alimentava uma sede louca, sôfrega, dolorosa, de justiça. Não queria vingança, não era disso que se tratava; procurava apenas um sentido de justiça. Vendo bem, considerou de imediato, se calhar nem era tanto a justiça o que verdadeiramente o atormentava, mas a injustiça. Incomodava-o a incerteza da vida, a arbitrariedade da sorte, a perversidade do destino. Com a imagem da pedinte esfarrapada diante dele, como um pequeno alçapão que se abriu e revelou o mais fundo de si mesmo, descobriu que o que realmente buscava era um sentido para a dor que não abrandava, e essa busca traduzia-se na demanda de um significado para a injustiça da existência.

"Então?", impacientou-se Fernando. "Vens?"

Quase automaticamente, Luís recomeçou a andar, mas sempre perdido nos seus pensamentos.

Murmurou algo imperceptível, tão incompreensível que levou o amigo a chegar-se mais a ele.

"O quê?"

Repetiu mais alto:

"Viver é sofrer."

 

José Rodrigues dos Santos, in A vida num sopro [pp. 173-174]

seria bom se: estivesse nas minhas mãos
música: Silence 4 - Eu não sei dizer
publicado por Raquel às 14:10
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