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Domingo, 10 de Outubro de 2010

Como queiras, Amor...

 

Como queiras, Amor, como tu queiras.

Entregue a ti, a tudo me abandono,

seguro e certo, num terror tranquilo.

A tudo quanto espero e quanto temo,

entregue a ti, Amor, eu me dedico.

 

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,

e nada, não, ainda há por que eu não espere

como de quem ser vida é ter destino.

 

As pequeninas coisas da maldade, a fria

tão tenebrosa divisão do medo

em que os homens se mordem com rosnidos

de malcontente crueldade imunda,

eu sei quanto me aguarda, me deseja,

e sei até quanto ela a mim me atrai.

 

Como queiras, Amor, como tu queiras.

De frágil que és, não poderás salvar-me.

Tua nobreza, essa ternura tépida

quais olhos marejados, carne entreaberta,

será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso

em lábios que se fecham como olhares de raiva.

Não poderás salvar-me, nem salvar-te.

Apenas como queiras ficaremos vivos.

 

Será mais duro que morrer, talvez.

Entregue a ti, porém, eu me dedico

àquele amor por qual fui homem, posse

e uma tão extrema sujeição de tudo.

 

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

 

Jorge de Sena, in Post-Scriptum

publicado por Raquel às 21:06
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