I actually do...

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

"(...) Tomás já não sabia sobre o que tagarelar. Ficou a observar o pai, a sua tez pálida e enrugada, o rosto chupado, o corpo frágil e envelhecido. O pai caminhava a passos largos para a morte e a triste verdade é que, mesmo assim, Tomás não conseguia manter uma conversa com ele.

«Como se sente o pai?»

Manuel Noronha suspendeu a colher no ar e olhou para o filho.

«Tenho medo», disse simplesmente.

Tomás abriu a boca, prestes a perguntar-lhe de que é que tinha medo, mas calou-se a tempo, tão evidente era a resposta. Foi porém nesse instante, no preciso momento em que calou a pergunta que lhe assomara à boca, que percebeu que algo de diferente tinha acontecido com aquela resposta; o pai de algum modo abrira uma janela dentro de si, pela primeira vez dissera-lhe o que sentia sobre alguma coisa. Foi como se, naquele exacto segundo, se tivesse processado uma qualquer transformação, como se uma racha se tivesse aberto na muralha que os dividia, como se uma ponte se tivesse erguido sobre um rio intransponível, como se a barreira entre pai e filho se tivesse tornado infinitamente mais pequena. O grande homem, o génio da matemática que vivia cercado de equações e logaritmos e fórmulas e teoremas, descera à terra e tocara no filho.

«Eu compreendo», limitou-se Tomás a dizer.

O pai abanou a cabeça.

«Não, filho. Não compreendes.» Meteu finalmente a colher à boca. «Vivemos a vida como se ela fosse eterna, como se a morte fosse algo que só acontece aos outros e apenas nos está reservada ao fim de muito tempo, tanto tempo que nem merece a pena pensarmos nisso. Para nós, a morte não passa de uma abstracção. No entretanto, eu preocupo-me com as minhas aulas e as minhas pesquisas, a tua mãe preocupa-se com a igreja e com as pessoas que vê a sofrerem no noticiário ou na novela, tu preocupas-te com o teu salário e com a mulher que já não tens e com papiros e estelas e outras relíquias cheias de irrelevâncias.» Olhou, pela janela da cozinha, para os clientes de uma esplanada, lá em baixo, na Praça do Comércio. «Sabes, as pessoas passam pela vida como sonâmbulas, preocupam-se com o que não é importante, querem ter dinheiro e notoriedade, invejam os outros e esmifram-se por coisas que não valem a pena. Levam vidas sem sentido. Limitam-se a dormir, a comer e a inventar problemas que as mantenham ocupadas. Privilegiam o acessório e esquecem o essencial.» Abanou a cabeça. «Mas o problema é que a morte não é uma abstracção. Em boa verdade, ela está já aqui ao virar da esquina. Um dia, estamos nós muito bem a deambular pela rua da vida como sonâmbulos, vem um médico e diz-nos: você pode morrer. E é nesse instante, quando de repente o pesadelo se torna insuportável, que finalmente despertamos.»

«O pai despertou?»

Manuel levantou-se da mesa, colocou o prato vazio no lavatório e abriu a torneira, passando o prato pela água.

«Sim, despertei», disse. Fechou a torneira e voltou a sentar-se na mesa da copa. «Despertei para, se calhar, viver os meus derradeiros instantes.» Olhou para o lavatório. «Despertei para ver a vida escoar-se como a água que desaparece por aquele ralo.» Tossiu. «Às vezes sinto uma raiva muito grande com o que me está a acontecer. Ponho-me a perguntar a mim mesmo: porquê eu? Com tanta gente que há por aí, tanta gente que não anda cá a fazer nada, por que razão me havia de acontecer isto a mim?» (...)"

 

José Rodrigues dos Santos, in A Fórmula de Deus [pp. 84-85]

publicado por Raquel às 16:40
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