I actually do...

Domingo, 20 de Julho de 2008

(...) Afonso consultou as suas notas.

"Protágoras", exclamou. "Protágoras disse que o homem é a medida de todas as coisas."

"Pois, isso", assentiu o padre, com um gesto vago. "Mas há mais. Schopenhauer rejeitou a própria ideia de alma, dizendo que todo o conhecimento está no cérebro, não no espírito. Ele considerava que o mundo não tem significado, não tem propósito, existe por si mesmo, et caetera. Ou seja, o mundo não tem sindo, nós é que lhe atribuímos um sentido, nós é que lhe inventamos um sentido para nos reconfortarmos."

"E o senhor acredita nisso?"

"Credo, Afonso, claro que não. Se acreditasse, não seria padre, valha-me Deus."

"Não há nada que ele tenha dito que considere verdadeiro?"

"Bem, isso é outra coisa. Sabes, o Schopenhauer via o mundo como uma coisa cruel, um local de sofrimento em que para viver é preciso matar. Por exemplo, a todo o momento os animais estão a matar outros animais, são milhares e milhares de mortes por segundo em todo o mundo. Vae victis. Para que um único animal carnívoro viva durante um ano, uma centena de animais terá de morrer de modo a alimentar esse único sobrevivente. E para que um único animal herbívoro viva durante esse mesmo ano, muita vegetação tem de morrer para lhe dar de comer. Por outro lado, as próprias plantas vivem à custa do apodrecimento da carne dos animais e dos restos das outras plantas. Ou seja, a vida alimenta-se de muita morte. Dura lex sed lex. Schopenhauer achava que o mundo dos homens obedece à mesma lei, os seres humanos vivem uma vida de sofrimento em que os homens são escravos das suas necessidades e desejos. É uma vida feita de violência, de frustrações, de dor, de doenças, de medo, de escravidão, de luta, de vitórias efémeras e derrotas permanentes, é um processo de perdas constantes e sucessivas, e o pior é que tudo isso acaba sempre mal, a vida termina invariavelmente com a perda final, a morte, na nossa existência não há fins felizes. (...)

 

José Rodrigues dos Santos, in A Filha do Capitão (pp. 88-89)

seria bom se: com saudades
música: Frank Sinatra - My Way
publicado por Raquel às 23:35
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