I actually do...

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Adeus

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

 

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

 

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus.
 

 

Eugénio de Andrade

seria bom se: já tivesse virado as costas...
música: Pearl Jam - Last Kiss
tags:
publicado por Raquel às 23:43
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"...todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração..."

"o passado é inútil como um trapo... Adeus."

Strelitzia5 a 26 de Setembro de 2009 às 19:06


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